A tragicomédia em ‘Mr. Roosevelt’

“É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”, escreveu Ana C. em “Recuperação da adolescência”, poema no qual está refletido o dilema atemporal de transitar para a vida adulta com todos os desalentos e expectativas inerentes a quem desejamos nos tornar. Mr. Roosevelt (2017), filme escrito, dirigido e protagonizado pela comediante norte-americana Noël Wells, mostra a saga da personagem central (Emily Martin) e o entrelaçar com esse processo na busca de uma afirmação pessoal.

Os primeiros frames da película cativam pela delicadeza da composição fotográfica: gravado inteiramente em 16 MM e patrocinado pela saudosa Kodak, o aspecto da imagem analógica corrobora no ar introspectivo proposto pelo enredo, comunicando do particular para o global. A partir disto, a aproximação com a vida e as questões de Emily revelam ainda mais intencionalidade, pois já no título da produção está o nome do seu gato, pivô para o retorno ao passado em Austin. 

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Noël Wells, conhecida por sua participação em ‘Saturday Night Live‘, interpreta a atrapalhada Emily.

O trabalho frustrado em um ambiente misógino e executado por pura necessidade financeira, a tentativa em seguir carreira de comediante na grande Los Angeles, um rompimento amoroso e o estopim de passar alguns dias na antiga casa, agora habitada pelo ex-namorado (Eric) com a atual parceira (Celeste), levam a jovem a uma espiral de sentimentos conflituosos acerca dos pilares que validam o conceito de sucesso.  

A cena do jantar para o qual Emily é convidada pelo casal interpretado por Nick Thune e Britt Lower é uma das mais significativas por conter, postas à mesa, indagações sobre os objetivos profissionais da protagonista; ao se dar conta das suas falhas e incômodos, ela, que compreende ali a pressão em atingir um lugar social seguro e reconhecido, parte para vivenciar desafetos gerados na discordância do estilo de vida impecável da namorada de Eric, cuja cordialidade robótica a irrita demasiadamente.

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Os bastidores de Mr. Roosevelt (Fotografia: Ramona Flume)

Episódios negativos e escolhas impulsivas permeiam o desencadear do roteiro, como numa infinita roda de azar da qual o sumo extraído é tão absurdo que chega a ser risível, uma sincera tragicomédia humana, tendo em vista que a dose de humor crítico Mumblecore meio Buñuel estilizam o compasso alternado entre alívio e desespero pela imprevisibilidade das ações embaladas por uma típica trilha sonora folk, mas bem pensada sensorial e esteticamente.

Mr. Roosevelt alcança seu objetivo ao expor a humanidade do núcleo, em que cada personagem, do seu modo, encara o íntimo nem sempre preparado para lidar com experiências inéditas ou carregar o ar semideus já criticado por Pessoa. A presença dos que cercam Emily em Austin, sobretudo, a de Jen (Daniella Pineda), ajuda na percepção de um processo árduo e intransferível, mas que não carece ser permeado pela solidão, tampouco por egoísmos. A bagagem construída na trajetória da protagonista e a reavaliação dos seus desejos e planos afirmam a aura feminina inquestionavelmente dona de si e sim, tumultuada no encalço, sem pudores. 

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Assista ao trailer:

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