Ninguém te prepara para crescer

Ou para limpar o banheiro inteiro pela primeira vez. Ou ir sozinho ao caixa eletrônico do banco. Ou, até mesmo, manter uma casa arrumada e lavar todas as suas roupas sozinho(a). Existem infinitas pequenas coisas que a gente faz pela primeira vez que podemos até receber instruções, pedir ajuda ou tentar ver algum tutorial na internet para saber como funciona. Mas a verdade nua e crua (que quase ninguém está disposto a nos contar) é que nós só aprendemos as coisas depois de passarmos por elas.

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Morar nos Estados Unidos têm me mostrado que eu, brasileira como sou, estava acomodada a uma realidade que não duraria para sempre. Um dos vários exemplos que posso dar é que aqui não é nada comum ter uma empregada (a não ser que você seja do clã Kardashian). Percebi após várias guerrilhas internas, que a vida tem uma dinâmica bastante engraçada e que a maioria das pessoas adultas pregam uma ideia incompleta e imprecisa de independência para nós.

Somos na maioria das vezes, educados a assimilar diversas pressões sociais (desde a escolha da nossa identidade de gênero à qual profissão exercer) como algo benéfico, um impulso que vai nos jogar sempre para frente pois “é assim que o mundo é”. Mas segundo minha própria experiência posso lhes dizer que não é bem por aí.

Vou citar um exemplo que acho muito engraçado: pessoas que menosprezam e julgam mulheres que (por escolha ou circunstância) optaram por ser donas de casa. Parece uma vida simples: acordar, alimentar, lavar, secar, limpar, cuidar, dormir e depois repetir. Porém até eu (que não nasci de verdade para essa profissão) que cuido junto ao meu companheiro da nossa casa, sei que essas tarefas só parecem fáceis. E como muitos já sabem: as aparências enganam.

A cultura de ter uma empregada (secretária do lar, faxineira, cozinheira, babá, cuidadora, mordomo ou pessoa que assume as atividades de uma casa) também influencia diretamente na nossa educação. Vamos a outro exemplo básico: você arruma sua cama e mantém seu quarto aparentemente organizado. As vezes até lava a louça aos domingos (ou sábados). Porém nunca precisou colocar sua roupa para lavar na máquina e depois secar ou faxinar a casa. No fim do dia quando chega em casa, você reclama que o serviço que a sua mãe ou a empregada (ou qualquer um dos nomes que você ache melhor citados no parêntesis anterior) fez e alega que
poderia ser melhor.

Chegou a hora de encarar a verdade: se você ainda pensa dessa forma e não reconhece o valor e o esforço necessários para realizar essas tarefas “básicas”, você definitivamente não está preparado(a) para sair da casa dos seus pais/responsáveis. Mas não se preocupe. A grande verdade é que ninguém está. Essa é uma daquelas coisas que “ninguém pode te contar” porque a maioria das pessoas está preocupada demais em não conversar sobre o que pode ser difícil e não glamuroso. Afinal faxinar a casa não rende likes, não é mesmo?

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Tradução: “eu acho que todos nós queremos sentir algo que havíamos esquecido ou virado as costas porque talvez na época não entendíamos o que estávamos deixando para trás”.

Depois que passei a morar nos EUA já perdi as contas de quantas vezes deixei de sair ou usei uma roupa que não queria porque a minha preferida estava suja, pois eu havia esquecido de lavar a roupa naquela semana. Ou minha pizza precisou retornar para o restaurante pois eu havia esquecido de tirar dinheiro antes de vir para casa. Mas a melhor (mais boba e enriquecedora) experiência que já tive foi ficar trancada fora de casa pois saí com meu companheiro e esqueci a minha cópia da chave. Em resumo: precisei ficar cerca de duas horas em plenos 6 graus celcius do lado de fora esperando o chaveiro com um pacote de peito de frango cru. Cheguei até a batizar o coitado (Milton, que Deus o tenha).

Mas o que ninguém te conta também é a satisfação que existe em ter suas roupas limpas, dobradas e guardadas. Em ter sua casa organizada, sem lixos espalhados (portanto sem pestes como mosquitos e baratas) e com tudo em seu devido lugar, em ter todos os seus boletos pagos pois você se organizou financeiramente para que aquilo fosse possível e para que sobrasse um dinheirinho extra para uma extravagância no final de semana (nem que seja tomar um sorvete no seu lugar favorito).

Existe prazer em crescer e se tornar adulto. E eu não estou falando apenas das regalias que a idade nos traz. Ser capaz de arcar com as suas responsabilidades (físicas, pessoais e emocionais) e poder proporcionar a você mesmo uma vida organizada e calma pode parecer impossível, mas se todo dia a gente tentar e lutar para conseguirmos nossos objetivos, iremos alcançar não apenas o equilíbrio, mas especialmente a felicidade interior.

Um comentário em “Ninguém te prepara para crescer

  1. Maria Christina Oliveira 16 de fevereiro de 2018 — 20:35

    Parabéns pela matéria excelente! Show! Nunca pensei que um assunto tāo cotidiano, rendesse tanto assunto.

    Curtir

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