O amor verdadeiro em ‘A Forma da Água’

Indicado em treze categorias do Oscar de 2018, incluindo Melhor Filme, ‘A Forma da Água’ se encaixa perfeitamente na categoria de cinema poético. As nuances entre a leveza da fantasia e o peso da realidade parecem se complementar de uma forma natural, caracterizando o trabalho com a assinatura de Guillermo del Toro.

Servindo ao propósito de conto de fadas ao qual se propõe, de acordo com o próprio diretor, o filme tem como base uma história de amor, em torno da qual desenvolve-se a trama. É esse o sentimento que causa ao espectador estranheza ou total imersão, dependendo da maneira como este recebe a obra. Mas seria o amor entre Elisa e o Homem Anfíbio tão objetivo e transparente quanto parece?

Em um primeiro momento, podemos deduzir que a atração da personagem principal pelo “deus aquático” nasce da empatia, um reflexo das características de ambos em meio à sociedade, que, guardadas as devidas proporções, são similares. Desprovidos de expressão vocal, as personagens vêem um companheiro uma na outra. Essa relação é posteriormente comprovada e, então, desenvolvida até o amor e a atração sexual.

Alguns aspectos do filme sugerem, porém, que algo possa existir por trás desse sentimento, algo além da identificação e da empatia. A conexão de Elisa com a água é evidente. Ainda bebê, ela foi encontrada abandonada em um rio, conforme relata sua colega de trabalho, Zelda. É durante o banho que se sente confortável para se tocar. A refeição que leva todos os dias para si mesma (e, mais tarde, para o Homem Anfíbio) são ovos cozidos, cujo preparo requer que sejam submersos em água. Até mesmo as gotas de chuva na janela do ônibus parecem agradá-la a caminho do trabalho.

Surge então o questionamento: seria a água em si o verdadeiro objeto de amor da personagem? A importância do elemento para Elisa está fundada em toda a sua vida, e o encontro com o ser em cativeiro no laboratório consumaria tal conexão. O Homem Anfíbio personifica tudo que ela ama, uma vez que depende da água para sobreviver e, de certa forma, se mistura ao elemento de forma indistinguível. Unir-se a ele representaria, inevitavelmente, unir-se à água.

Como que para instigar a dúvida, o filme é encerrado com um poema de autor desconhecido, cujo significado está aberto à interpretações:

“Unable to perceive the shape of you,

I find you all around me.

Your presence fills my eyes with your love

It humbles my heart,

for you are everywhere.”

Em tradução livre: “Não sendo capaz de perceber sua forma, eu te encontro ao meu redor. Sua presença enche meus olhos com seu amor. Isso acalma meu coração, pois você está em toda parte”.

Como você interpretou ‘A Forma de Água’? O que acha dos sentimentos de Elisa? Para refletir, ouça uma das canções-tema do filme, composta por Alexandre Desplat e interpretada por Renée Fleming:

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