A mulher moderna por trás de “Marvelous Mrs. Maisel”

“I enjoy being a girl”, diz canção do musical Flower Drum Song que, na voz de Sutton Foster, pode ser ouvida enquanto Miriam “Midge” Maisel está em busca de emprego. Trata-se da protagonista de “Maravilhosa Senhora Maisel” (Marvelous Mrs. Maisel), seriado dos estúdios Amazon que, apesar de ter seu episódio piloto lançado em março de 2017, só disponibilizou sua primeira temporada no serviço de streaming em novembro do mesmo ano, conquistando holofotes nos meses seguintes com os prêmios principais nas edições de 2018 do Globo de Ouro, Critic’s Choice e Producers Guild of America.

Encarnada por Rachel Brosnaham (que já aparecera na concorrência, em House of Cards), a emblemática personagem depara-se, em um dos episódios da série, com o choque de seus familiares ao anunciar seu interesse em trabalhar — um retrato da conservadora Upper West Side do final dos anos 1950, onde o “recatada e do lar” permanecia um lema de vida entre as mulheres. Embora Midge repense o significado desse mantra, não é por essa razão que escutamos “I enjoy being a girl” (em mais de uma cena, inclusive). Trata-se de um dos muitos artifícios que fazem, de forma irônica, o seriado de época carregar uma das premissas mais necessárias à contemporaneidade: a mulher moderna e suas multifacetas.

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Criado por Amy Sherman-Palladino, a mente por trás do fenômeno Gilmore Girls, “Mrs. Maisel” tem como plot principal, como o título indica, a reviravolta total na vida de uma dona-de-casa que, mãe de dois filhos, dedica-se inteiramente ao seu casamento e à sua aparência. O marido, Joel Maisel (Michael Zegen, dos filmes Brooklyn e Frances Ha), sonha em ser comediante, e conta 100% com o apoio da esposa, que é tão devota a ponto de medir as dimensões de seu corpo com frequência e maquiar-se todas as manhãs antes mesmo dele acordar. O casal, ainda jovem, visita periodicamente as boates underground de Nova Iorque, onde Joel arrisca seus números de comédia.

O que parece ser uma rotina de casal perfeita é quebrada quando, após uma noite de apresentações ruins, Joel faz uma revelação que colapsa a vida de Miriam. Desamparada, a garota bebe além da conta e dirige-se ao pub comumente frequentado por ambos, transformando seu break down em uma cômica apresentação stand up. Mrs. Maisel é um sucesso, e seu talento bruto para o humor desperta o interesse à aspirante a agente de talentos Susie Myerson (Alex Borstein, de Gilmore Girls), que é atendente do local.

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Quem foi Mrs. Maisel?

Já tendo revelado o suficiente (por enquanto) sobre a trama, é interessante perceber o quanto “Maisel” traz ecos de uma sociedade real. Em entrevista à Vanity Fair, Amy afirmou que, por ser filha de um comediante stand up, ela cresceu “ao redor de um bando de judeus que se juntavam tentando fazer rir um ao outro” (inclusive, os costumes judaicos também estão no seriado, visto que é a religião da protagonista). Além de referências a comediantes reais, a produção traz paralelos com a vida de famosas mulheres da comédia e do show business. “Quem é a verdadeira Mrs. Maisel?”, indagaram veículos estrangeiros como Romper e Bustle.

Muitas histórias similares à de Midge certamente inspiraram a interpretação de Rachel e os eventos que rodeiam a personagem: pode-se destacar a vida e a personalidade das comediantes Carol Burnett, Betty White e, essencialmente, Joan Rivers. Esta última, falecida em 2014, também judia e com casamentos complicados. Um padrão de mulheres que batalharam, com muita ousadia, por seu lugar na mídia, sem ceder à sexualização ou caricatura, e que até então não tiveram sua trajetória de pioneirismo tão enaltecida. No Brasil, podemos relacionar a figura de Midge às estrelas Dercy Gonçalves e Hebe Camargo, cujo humor e espontaneidade foram peças-chave para conquistar ascenção. Dercy foi homenageada em uma minissérie de 2012, e Hebe inspirou um musical que atualmente está em cartaz nos palcos de São Paulo.

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Onde queremos chegar? A resposta está estampada nos pôsteres promocionais do seriado: “Mrs. Maisel” traz ao microfone um exemplo de mulher que, como muitas antes, desafia a indústria machista do entretenimento, criticando de forma explícita seus podres e problemas — que ainda persistem, mesmo mais de cinquenta anos após o desenrolar da trama. Miriam, com suas cores alegres e “femininas”, destaca-se na maré de homens, convidando o espectador a ouvir uma história que demorou (e muito) para ser contada.

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A mulher além do tempo

No livro “Quinta Avenida, 5 da Manhã”, Sam Wasson relata o impacto que a personagem Holly Golightly causou, em 1958 (mesmo ano em que ocorrem os eventos de “Maisel”), após o lançamento do livro “Bonequinha de Luxo”. A obra de Truman Capote, adaptada em 1961 para os cinemas e com Audrey Hepburn no papel de Holly, chocou os leitores (e posteriormente espectadores) ao trazer uma protagonista jovem, festeira e desbocada, que discute abertamente sobre sexo e não tem o “lar” ou sequer um marido como prioridades. Estava soprada a mulher moderna: sucesso de vendas, o polêmico livro deu voz à uma geração de mulheres com pensamentos e atitudes diferentes do que ditava a ordem social, construindo um ideal de liberdade que é permeado hoje de forma mais ampla a partir do feminismo.

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Naquela época, como disse Wasson, ou se era a pura Doris Day ou a devassa Marilyn Monroe; nunca, até então, um meio-termo, como Holly Golightly — ou Miriam Maisel. A comediante Midge é exatamente uma representação da nova “mulher moderna dos anos 1950”: apesar da dedicação ao casamento (um hábito herdado de sua conservadora mãe, uma espécie de socialite da comunidade judia), a personagem xinga e fala sobre sexo mais do que o marido — a sexualidade feminina, inclusive, é uma das temáticas de Crazy Ex-Girlfriend, seriado de trama contemporânea cuja protagonista é bastante semelhante à Mrs. Maisel. Ao quebrar esse tabu, percebe-se em Midge a construção de uma personagem complexa, que parece avant-garde dentre os estereótipos de época que rodeiam a mente do espectador; no entanto, ela ainda é uma mulher de seu tempo, lidando com o peso atordoante de um divórcio iminente — uma maçã que não cai muito longe da árvore Divorce, seriado da HBO estrelado por Sarah Jessica Parker.

Levando-se em consideração o que acabou de ser explicitado, percebe-se o explêndido paradoxo construído por Maravilhosa Senhora Maisel: um seriado de época que, apesar de retratar eventos do século passado, traz uma heroína com dilemas que encaixam-se perfeitamente aos dias atuais, e que alfineta maternidade, roupas apertadas, conformismo feminino e objetificação.

Em meio à piadas ousadas e dramas familiares, cresce um protesto (inclusive encenado) sobre o quanto a mulher deve ser valorizada, não só no show business, mas em qualquer comunidade. Com a honestidade de um stand up, o programa pergunta: “Se os homens podem fazer comédia, por que eu não posso? Por que eu devo me tornar uma ‘coisa’, uma caricatura para fazer sucesso? Eu sou real”.

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Confira abaixo o episódio piloto do seriado (em inglês):

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