Em entrevista, conheça mais sobre o novo curta cearense “Capitais”

Foi ao som das canções do cearense Belchior que os realizadores Arthur Gadelha e Milla Medeiros, dois jovens entusiastas da cena cinematográfica cearense, escreveram “Capitais”. O que iniciou como um simples exercício para uma oficina de roteiro, sendo concebido pelos amigos em um sofá durante as tardes de julho e agosto do ano passado, evoluiu para novas proporções: o curta-metragem passou por uma intensa fase de pesquisas, entrevistas e preparações, despertando o interesse de investidores locais, que deram um empurrãozinho para que as personagens Alice e Laura, protagonistas da trama, ganhassem forma em carne e osso.

Em processo de finalização, mas ainda sem imagens ou teasers divulgados (a foto apresentada é de uma exibição teste do filme, com Milla ao microfone e Arthur à sua direita), o curta vem ganhando espaço por contar com diretores jovens que fazem parte de uma leva de talentos que o estado tem revelado nos últimos anos — o nordeste, inclusive, é atualmente um dos maiores realizadores de cinema no Brasil. Além disso, a produção contou com a opinião de cineastas de destaque, como o recifense Kleber Mendonça Filho (diretor e roteirista de “Aquarius”) e o paulistano Marcelo Müller (roteirista de “Infância Clandestina”, indicado da Argentina para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013).

Com exclusividade, o Foca Alternativa estreou suas entrevistas em uma conversa com Arthur e Milla sobre “Capitais”. Confira o bate-papo na íntegra a seguir.

FOCA: Qual a razão para o título do curta?
ARTHUR: Nos apegamos muito ao título “Capitais” por ser uma referência direta à música origem de Belchior. Principalmente quando ele canta, na música “Alucinação”, os versos “A solidão das pessoas dessas capitais”. Tudo isso diz muito sobre o que é o nosso filme.

FOCA: Qual a sinopse?
ARTHUR: A história é sobre Alice, uma jovem de 20 e poucos anos, que vive sozinha em um dos milhões de apartamentos empilhados das capitais. A calmaria do dia-a-dia muda quando Laura, filha da sua vizinha de parede, bate em sua porta para perguntar se sabe algo sobre sua mãe. Ninguém tem visto ela há semanas; nem Alice, nem Laura, e muito menos os moradores do condomínio.

FOCA: De onde surgiu a inspiração?
ARTHUR: A história nasceu quase que por encomenda. Eu e a Milla Medeiros participamos de uma oficina de roteiros no Porto Iracema das Artes [escola de Fortaleza com foco em criação cultural], ministrada pelo professor Marcelo Müller, para o programa PREAMAR [programa de formação básica da escola, que junta ex-alunos para realizar projetos]. Todo ano essa oficina é temática, e a de 2017 foi “Paisagem Poética do Belchior”. Passamos semanas respirando Belchior, ouvindo incansavelmente todas as canções, lendo sobre as composições, etc. No fim da jornada, nos conectamos a esse sentimento de que ao mesmo tempo Belchior canta sobre o medo, a angústia e a coragem de viver. A vontade de não morrer mais. Nossa história fala basicamente sobre a solidão das capitais, as prisões do dia-a-dia, o sufoco. Acredito que como uma forma de respiro.

FOCA: Como foi o processo de roteirização? E as referências?
MILLA: Entre julho e agosto do ano passado, quando participamos da oficina do Porto Iracema das Artes, Arthur e eu decidimos no mesmo dia da seleção que, se fôssemos aprovados, faríamos uma parceria no roteiro. Foram praticamente dois meses de reuniões quase diárias, na minha casa, na dele ou lá no Porto Iracema. Nós dois, por acaso (ou não), somos vizinhos, então essa proximidade só fortaleceu mais ainda nossa dedicação ao roteiro. Nossa primeira referência foi, sem dúvidas, o álbum “Alucinação”, do Belchior. Nossa protagonista nasceu daí, “uma mulher sozinha” dentro das capitais.
Diria que outra grande referência foi à “Aquarius”, filme de Kleber Mendonça Filho, a quem tivemos a oportunidade de encontrar recentemente e conversar sobre o nosso filme. Outros filmes como “O Pântano”, “Meshes of the Afternoon” e “O Inquilino” também foram referências importantes. Foram quase três meses de tratamento do roteiro literário e roteiro técnico. Em novembro de 2017 fomos gravar.

FOCA: Quais foram as principais locações? E como vocês as escolheram?
ARTHUR: As locações foram um desafio à parte, principalmente porque a produção era muito reduzida. Precisávamos de dois apartamentos próximos [o de Alice e o de Flora], um saguão de condomínio e um terraço com vista para o mar. Três locações difíceis de conciliar num mesmo espaço, então foram em três cantos distintos. Escolhemos pela mobilidade, e adaptamos o máximo possível os cenários ao filme. No apartamento de Alice, praticamente mudamos toda a decoração: montamos uma biblioteca inteiramente do zero, sofá e cortina. A locação do terraço foi um desafio imenso porque precisávamos filmar de madrugada, o que gerou uma matemática bem difícil.

FOCA: Para vocês, quais os maiores desafios de realizar um curta-metragem?
MILLA: É a minha estreia como realizadora, e eu nunca havia estado num set de filmagens, ou roteirizado… Tudo foi um desafio, tudo era novo, pelo menos para mim. O Arthur já tinha feito tudo isso, mas pelo o que sei, de certa forma, também foi uma experiência totalmente nova para ele. Roteiro, direção, produção, montagem… nós fizemos de tudo e mais um pouco em “Capitais”.

FOCA: Qual foi a reação das pessoas após a exibição teste?
ARTHUR: Essa é uma pergunta muito interessante. Houveram cerca de 10 versões do roteiro; eu e Milla sempre discutíamos muito cada alteração sugerida por algum professor ou leitor. Depois de selecionado para ser um dos filmes do programa PREAMAR, o texto passou por muita gente. Acreditávamos ter chegado na versão final. Filmamos durante uma semana, editamos durante mais de um mês. Quando exibimos o filme numa sessão teste, na própria escola, nos impressionamos que em determinada cena, as pessoas riam bastante. E é aquela coisa de cinema: um ri, e estimula que outros também o façam. Logo em seguida, a cena voltava a tratar da solidão, e não parecia combinar que segundos atrás a plateia tivesse rido. São reações que não esperávamos, e que acabaram intervindo diretamente na montagem do filme. Fizemos alterações imensas e dolorosas, do ponto de vista do que nós criamos, e precisávamos deixar algumas coisas irem embora no corte final.

FOCA: Quais os seus trabalhos anteriores?
MILLA: “Capitais” é realmente o meu primeiro trabalho audiovisual. Sou uma estreante, [e produzir o curta foi] um verdadeiro ritual de passagem de somente espectadora para realizadora. Espero, em breve, estar novamente nos bastidores.
ARTHUR: Meu primeiro trabalho foi amador, e até recebeu uma atenção legal quando lançado. “Distante”, de 2015, tem sete minutos de duração. Foi exibido no 9º Festival Internacional Curta Taquary. É um filme sem falas, e feito sem dinheiro (talvez esteja me contradizendo), sobre a incomunicabilidade entre pai e filho. Foi a última aparição como ator do cineasta Francis Vale, que infelizmente nos deixou no fim do ano passado. Foi uma honra compartilhar um filme tão pequeno, mas tão feliz, com ele. Minha segunda experiência foi com um filme de conclusão de curso da Casa Amarela Eusélio Oliveira [outra escola de Fortaleza], um curta estudantil sobre alunos que não conseguem escrever um roteiro de cinema. Tipo metalinguagem de que estudante ama brincar e achar que tá arrasando. “Como Chegamos Aqui”, de 2016, tem oito minutos.

FOCA: Por quanto tempo duraram as gravações?
MILLA: Foram cinco dias, de segunda a sexta. A semana mais longa da minha vida até então. Sinto saudades daquele set, da equipe entrosada, de tudo. Foi uma experiência maravilhosa, em especial para quem está começando.

FOCA: Agora, vamos para a pergunta que mais interessa… Para quando está previsto o lançamento?
MILLA: Acredito que ainda neste primeiro semestre de 2018.

Enquanto aguardamos o lançamento oficial de “Capitais”, ouça abaixo a música “Alucinação”, de Belchior:

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