“Com Amor, Van Gogh”: sensibilidade e experiência inigualáveis

Como transmitir a sensibilidade das obras de um artista plástico para recursos cinematográficos? Muito se tentou anteriormente, em filmes como “Renoir” (2012), “Lautrec” (1998), “Moça Com Brinco de Pérola” (2003), “Grandes Olhos” (2014) e uma gigantesca lista de outros. Arrisco dizer, no entanto, que nenhum deles realizou o feito de forma tão efetiva (e afetiva) quanto “Com Amor, Van Gogh” (“Loving, Vincent”), longa-metragem que chegou aos cinemas em 2017 (após sete anos de concepção) e atualmente encontra-se disponível no catálogo do serviço de streaming Netflix. Indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2018, o filme embala o espectador em uma experiência até então inigualável, tendo como principal mote seu pioneiro e ousado visual.

Ambiciosa, como já esclarece em seus primeiros minutos, a produção é a primeira a ser realizada inteiramente em animação de pintura à óleo: reunindo 125 artistas (que passaram por um extenso processo de seleção) e cerca de 65 mil quadros, o longa-metragem de Hugh Welchman (já vencedor de uma estatueta dourada de Melhor Curta-Metragem Animado, em 2008) e sua esposa Dorota Kobiela, também animadora, mergulha nas obras do holandês Vincent Van Gogh para compor um drama biográfico em torno dos eventos de sua morte, ocorrida em 1890. O foco da produção, no entanto, está em captar a sensibilidade do artista – o que resulta em um trabalho bastante apaixonado e comovente.

com-amor-van-gogh-3

Apesar da veia inspirada em eventos reais e o protagonismo evidente em Gogh, como o título propriamente exprime, a trama é na verdade costurada por Armand Roulin (Douglas Booth), filho do carteiro Joseph Roulin (Chris O’Dowd), que recebe de seu pai, muito amigo de Vincent quando em vida, a tarefa de entregar uma carta do então recém-falecido pintor a seu irmão. A incumbência leva o jovem rapaz a cruzar caminho com alguns conhecidos do artista, como o médico Paul Gachet (Jerome Flynn) e sua filha Marguerite (Saoirse Ronan).

Preocupando-se em historiar fragmentos da vida de Vincent (e, principalmente, os últimos dias dele) por meio de depoimentos e flashbacks, construindo assim uma noção do impacto de sua morte aos indivíduos que o rodeavam, o roteiro escrito pelos dois diretores (e Jacek Dehnel) é confuso em seu primeiro ato, principalmente por utilizar-se de um ritmo diferente do qual o espectador está acostumado, e propor isso enquanto o público ainda está assimilando tudo o que é visto em tela. Entretanto, a estrutura que o longa assume a partir do seu ato seguinte, quase como um drama policial de investigação em seus diferentes depoimentos – que levam o jovem Roulin a duvidar das circunstâncias de morte de Gogh – tornam a narrativa do filme não só palatável quanto deveras instigante. À proximidade do final, a poética vence, despertando deslumbre e afeição.

Loving-Vincent

É interessante ressaltar o quanto o filme é transparente em si; além de destacar a numerosa equipe que fez parte da produção, ao final dela são esclarecidos quais personagens foram desenvolvidos de maneira ficcional e quais baseiam-se em personalidades reais, assim como em quais obras o filme teve base para compor seus cenários e figuras. Tecnicamente, cores vívidas diferenciam uma linha temporal de outra pintada em preto-e-branco, e atores não têm suas expressões completamente desconstruídas pela tinta, sendo possível reconhecê-los sobre a tela. Decisões acertadas, visto que colaboram para a compreensão da trama e para seu fôlego, dado que o ritmo  é afetado em consequência da pouca ação e pela predominância do visual e dos diálogos como principais elementos da obra.

Com uma linda trilha sonora de Clint Mansell, parceiro de Darren Arronosfky na maioria de suas produções, o filme vai explorando ápices de encantamento e intensidade até encerrar com uma conclusão simplória, mas que atinge novo patamar em termos de arte cinematográfica, trazendo à mente de forma sensibilíssima pensamentos sobre a vida, a morte e a construção de um legado. Celebrando a visão de um homem de frágil e sentimental, que nunca chegou a vivenciar seu sucesso, “Com Amor, Van Gogh” é feito como uma carta de amor que parece escrita por ele mesmo, trazendo, ao ultrapassar possibilidades, o máximo de homenagem que o cinema já trouxe à um artista visual.

 

CLASSIFICAÇÃO 4

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close