“Com Amor, Simon” e o cinema de apelo jovem

Desde o início da década, cinéfilos têm testemunhado uma nova leva do que chamo de “cinema geracional”; tratam-se de produções voltadas à adolescentes, que vez ou outra pintam com grau de qualidade satisfatório nas telonas e estão fadadas à, futuramente, preencherem a faixa da tradicional Sessão da Tarde.  Se os anos 1980 esbanjaram produções do visionário diretor John Hughes, a bola da vez para os estúdios é se debruçar sobre best-sellers da literatura YA (para jovens adultos); percebe-se, por um lado, o foco em distopias épicas, como em Divergente (2014) e Jogos Vorazes (2012),  e pelo outro, em romances contemporâneos, como em A Culpa é das Estrelas (2014) e Cidades de Papel (2015) – que miram de vez no emocional de seu público-alvo.

Em busca de capturar a essência de uma juventude cada vez mais aberta à diversidade e envolvida com causas sociais, políticas e ambientais, esses filmes tentam dar pequenos passos em relação à representatividade em Hollywood. É o caso de Com Amor, Simon (2018), filme teen com um protagonista gay e adolescente que, moldado como uma mistura entre “drama de colegial” e comédia romântica, traz um personagem inseguro quanto a “sair do armário”; um medo que ainda persiste entre muitos jovens do séc. XXI. Firmando uma amizade virtual (e sob anonimato) com a única pessoa que sabe do seu segredo, o misterioso “Blue”, o garoto Simon (Nick Robinson, de “Tudo e Todas as Coisas” [2017] e “Jurassic World” [2015]) passa a alimentar uma paixão platônica por seu correspondente secreto e devanear em busca de sua verdadeira identidade.

Baseado em um livro de Becky Albertalli, o filme é dirigido por Greg Berlanti, conhecido por ser roteirista de séries famosas do canal norte-americano CW, como Arrow, Flash e Supergirl, e por ter dirigido a comédia Juntos Pelo Acaso, de 2010 (que inclusive é estrelada por Josh Duhamel, também no elenco de Simon no papel de pai do protagonista). Apesar da experiência, Berlanti não assume o roteiro do longa-metragem, que está a encargo de Isaac Aptaker e Elizabeth Berger, co-showrunners do hit This Is Us. O que há em comum nesses êxitos da equipe? São todos bons exemplos de produtos da indústria do entretenimento que reconhecem bem seus consumidores – o que não é diferente em Com Amor, Simon.

A atmosfera do filme (e suas escolhas) é inteiramente voltada para dois eixos de um público muito específico: a leva atual de teens/tweens e os espectadores LGBT. O elenco deixa isso claro:  além de Robinson, que é um jovem astro em ascensão, estão Katherine Langford e Miles Heizer, do seriado-fenômeno Os 13 Porquês, e Keyinan Lonsdale, o Kid Flash do universo da DC na televisão. Percebe-se que o humor, as referências e as situações foram arquitetados para serem atuais e identificáveis a quem faz parte desse quadrante e, ainda que a história demonstre charme de forma geral e possa agradar a outras plateias, a atenção delas pode acabar voltada ao surpreendentemente envelhecido Duhamel e sua parceira de tela Jennifer Garner, por ambos serem veteranos em sua carreira cinematográfica.

O ponto é: aos que interessam, o filme é adorável; tem uma escrita divertida e leve, personagens carismáticos e, acima de tudo, uma temática necessária, que debate sobre estereótipos sociais e de sexualidade (há aqui um incentivo à autoaceitação e uma porta para conversas entre amigos e família). Entretanto, aos demais que se dispuserem a assistir, ele deve soar como “só mais um”, principalmente quando decai em certos clichês (sobretudo em relação aos pais e suas reações). Infelizmente, ele ainda sofre com outro fator: o excesso de referências temporais, que inevitavelmente deixam a produção com a iminência de tornar-se datada.

Ainda no que diz às iscas que o longa-metragem joga para seu fãs em potencial, é relevante citar que a trilha sonora de Robin Simonsen é ofuscada por uma seleção de canções assinada pelo produtor indie pop Jack Antonoff (frequente colaborador de estrelas como Lorde e Taylor Swift), que enche o soundtrack com músicas de seu projeto-banda Bleachers, além de artistas como Troye Sivan e Khalid, e outras consagradas faixas de Whitney Houston e Jackson 5. O peso dessa musicalidade para o tom que o filme busca é imenso, sendo crucial em certas sequências para concretizar seus objetivos.

Com Amor, Simon (finalmente) quebra alguns tabus: é um blockbuster (atenção à palavra, que exclui filmes como Call Me By Your Name e Moonlight) de protagonista gay e voltado para jovens, que investe em sorrisos e romance ao invés de doenças e sofrimento. Uma obra de conquistas interessantes e resultado simpático, que faz da linguagem objetiva seu grande trunfo (e,  talvez, seu maior defeito, por ser tão restritiva). Vale os minutos de atenção, caso você não deixe para assistir só daqui a alguns anos.

CLASSIFICAÇÃO 4

 

(Confira abaixo a soundtrack do filme, curada por Jack Antonoff)

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