A ascensão e a queda de Alex Turner e os macacos do Ártico

Acompanho o Arctic Monkeys desde os quinze anos de idade. Como adolescente, aquele tipo de música que a banda fazia era o crème de la crème do meu recém despertado (e consciente) apelo pelas artes. O Arctic Monkeys era tudo que eu queria e precisava: riffs de guitarra raivosos que irritavam os velhos caretas, letras humanas e extremamente identificáveis, e estilo. Muito estilo. A maioria das pessoas pensa que o Arctic Monkeys começou a ter estilo lá pela fase Suck It And See (e atingiu o ápice com AM), mas na verdade os Monkeys sempre foram cool. Eles eram cool porque não se importavam em ser cool, então consequentemente o eram. E isso na mentalidade de uma adolescente de 15 anos era uma antítese viciante.

Acompanhei de perto as transformações e crescimento da banda, enquanto eu mesma me transformava e crescia como ser humano. Sete anos depois, e eu agora com 22, temos Tranquility Base Hotel + Casino. O estranhamento é imediato. É impossível tentar traçar comparativos com os trabalhos mais antigos do Arctic Monkeys. Tranquility Base Hotel + Casino é um divisor de águas na carreira de uma das mais influentes bandas de rock da atualidade, assim como foi Humbug em 2009.

Porém, no álbum novo, é como se Alex Turner embarcasse sozinho pelas estrelas em uma viagem do tempo para os anos 70, à procura de David Bowie. A guitarra já não pode conter seu espírito criativo, então o grande protagonista do álbum passa a ser o piano. Tranquility Base Hotel + Casino funcionaria perfeitamente como um álbum solo de Turner (e quase o foi). Todas as letras foram escritas por Turner, que participou da execução de todas as faixas (Nick O’Malley só esteve presente em seis, Matt Helders em nove), além de ter produzido o disco e feito a arte da capa.

Alex sempre foi, antes de tudo, um poeta. Começou a escrever ainda no Ensino Médio, quando conheceu os poemas de John Cooper Clarke (e o Arctic Monkeys foi responsável por musicar um deles, “I Wanna Be Yours”, em AM), e sempre demonstrou grande facilidade em transformar sentimentos e sensações em letras geniais. O lirismo do frontman atrelado aos riffs de guitarra de Jamie Cook, a base sólida do baixo de Nick O’Malley e a ousadia transmitida pela bateria de Matt Helders elevaram o Arctic Monkeys a um patamar dificilmente alcançado por bandas na era digital: astros que não desaparecem na montanha de bandas e músicas produzidas pela indústria cultural. O Arctic Monkeys é pra valer, e representa o renascimento do rock n’ roll em sua forma mais crua.

Dessa vez, porém, é como se só houvesse Alex. Com letras inteligentes e incrivelmente pessoais, Tranquility Base Hotel + Casino se desenrola dentro da mente de Alex e de tudo que a rodeia. Ele é o maestro dessa orquestra, e o resto da banda não parece se importar tanto com isso, mas a falta de diversidade e troca de ideias fez com que o álbum saísse prejudicado. TBHC funciona quase como uma continuação de Everything You’ve Come to Expect (2016), último álbum do The Last Shadow Puppets, também foi protagonizado por Turner (figurante da vez: Miles Kane).

O novo álbum do Arctic Monkeys traz grandes avanços na experimentação instrumental, trabalhando o piano com sintetizadores, órgão, violão barítono e vibrafone, além dos instrumentos já conhecidos da banda, como a bateria, guitarra, baixo e violão. Apesar da variedade de instrumentos, todas as músicas parecem uma grande e única sinfonia. O álbum não alcança um ápice, o que pode até ter sido pensado para funcionar dessa forma, mas na prática deixa a desejar.

Os interlúdios podem ser percebidos quando escutados com atenção, e esta é a proposta deste álbum: ser experimentado delicadamente. É uma obra interessante, porém a falta de energia e comunhão fazem muita falta no primeiro lançamento da banda em cinco anos.

Favoritas: “Tranquility Base Hotel + Casino”, “Four Out Of Five” e “Batphone”.

CLASSIFICAÇÃO 3

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