A prosa etérica de Patti Smith em ‘Só Garotos’ e ‘Linha M’

Patti Smith é uma cantora, escritora e poetisa americana de renomado sucesso. Debutou no mundo da música com o disco Horses, eleito pela Rolling Stone o 12º maior álbum punk de todos os tempos, mas já era conhecida no cenário underground de Nova York devido a sua poesia, sendo uma talentosa escritora.

‘Só Garotos’ e ‘Linha M’ comprovam o talento da escritora que possui uma capacidade incrível de fazer os leitores sonharem acordados ao lerem suas obras.

Os dois livros são autobiográficos e capturam a atenção da mesma forma que fazem divagar, ler as palavras escritas por ela é como abrir uma fechadura secreta na mente e se permitir entrar em um turbilhão de pensamentos que chegam sem controle. 

‘Só Garotos’ é o primeiro livro de memórias da cantora punk (Foto: Divulgação)

Uma afirmação feita em ‘Linha M’ sintetiza bem os dois livros. Patti Smith declara que “Existem dois tipos de obras-primas: as obras clássicas monstruosas e divinas como Moby Dick, O morro dos ventos uivantes ou Frankenstein. Depois há o tipo em que o escritor infunde uma energia viva em palavras que esfregam torcem e penduram o leitor para secar. Livros arrasadores. Como 2666 ou O mestre e a Margarida. Crônica de um pássaro de corda é um desses livros.”

Assim que terminei de ler ‘Só Garotos’ tive a certeza de que esse livro irá se tornar um clássico. A leitura não foi apenas uma experiência, mas sim uma jornada.

Patti expõe a si mesma de uma maneira rara de se ver, ela escarna seu cerne, sua juventude. Cada momento descrito, cada aventura vivida, cada amizade feita e cada amor sentido foram essenciais para compor cada parte de sua alma. Uma alma resiliente, mesmo ante tantas dificuldades e a difícil descoberta de um caminho que não sabia como percorrer, mas que precisava trilhar para chegar em um lugar que só reconheceria na linha de chegada. E chegou. Continua chegando.  

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Patti Smith e Robert Mapplethorpe em 1969 (Foto: Norman Seeff)

Patti e Robert 

E Robert! Ah, Robert. Falar de Só Garotos sem mencionar Robert Mapplethorpe seria um crime. Ele foi seu amor, seu parceiro, seu amigo. Os dois viveram juntos momentos preciosos, raros de presenciar e mais ainda de se partilhar.

Eles foram o incentivo, a ajuda e a razão um do outro. Viveram momentos difíceis, quase mortais, mas juntos, trilharam na arte, uma saída, suas existências. Por isso é impossível não chorar o destino de Robert pelas palavra de Patti. É triste, mas recompensável saber do seu brilhantismo e de sua felicidade. Ele foi feliz, eles foram felizes. Ela ainda é.

Mas não é possível ser feliz o tempo todo. E é aí onde entra ‘Linha M’. Esse romance parece um sonho enevoada costurado numa colcha de crônicas. Aqui conhecemos uma Patti mais madura, uma rotina, viagens, gatos e muitos devaneios sobre literatura. É quase uma calmaria depois da tempestade.

Patti emerge um atmosfera de sensatez, cria uma filosofia etérica pessoal. É um sonho triste conformado com momentos de alegria, impossível de largar e difícil de terminar, suas palavras convocam tantos questionamentos, tantas reflexões, que é impossível não pausar a leitura para pensar

‘Linha M’ traz recorte da vida de Patti no presente; todo feito por ela (Foto: Divulgação)

Sentimos juntos saudades de Fred, seu marido, e recordamos felizes suas lembranças. Praticamente nos tornamos clientes do Café ’Ino, comemoramos suas conquistas, viajamos juntos em suas viagens, aceitamos e tomamos para nós seus misticismos e embarcamos em todos seus devaneios literários.

Ansiamos em ler os livros citados e nos vemos completamente envolvidos em seus questionamentos narrativos acerca das histórias ficcionais. A vida e a morte a fascinam e nós entendemos o por quê, talvez, porque no fundo, nos sentimos assim também.

Abraçamos, invejamos e odiamos sua solidão e solitude.

Patti Smith vê e aceita o mundo em uma ótica muito particular, possivelmente em uma tentativa (bem sucedida) de se manter sã em um mundo louco que deliberadamente leva embora nossos amores. E no fundo é isso que todos nós queremos. 

Foto destaque: Philip Montgomery | The New York Times

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