‘Variações Enigma’, de André Aciman, subverte amor e sexualidade

André Aciman mais uma vez dá vida a uma obra prima literária magnífica. Variações Enigma’ surpreende, choca e hipnotiza.

Acompanhamos Paul descrevendo, com um desejo invejável, suas paixões mais marcantes, consumadas e não consumadas, amores vividos tão intensos que mesmo quando acabam findam eternos.

A história se divide em cinco recortes, contos, da vida do protagonista e não segue uma linearidade cronológica esperada. Aspecto que, aliado a narrativa em primeira pessoa, dá o tom da leitura, um relato extremamente pessoal de um homem que ama amar e se deleita com seus encalços: o medo, a incerteza, a correspondência, o prazer, o sexo e a vontade de se perder e se encontrar em outra pessoa.

Os tamanhos das sentenças textuais são tão longos que não é raro se perder em um dos pensamentos de Paul. Ele é muito descritivo e sensitivo. Sente demais, ama demais e é muito consciente de si. Cada relação amorosa e platônica são únicas, são experiências diferentes, prazeres diferentes, pessoas diferentes. Mas todas têm um aspecto em comum:  são vividas para serem apreciadas com a intensidade da verdade da vida.

A sexualidade não é abordada de uma maneira sútil, mas sim natural. A palavra bissexual não aparece na narrativa, mas é dessa forma que nos identificamos com o protagonista. O gênero de sua paixão não importa, o marceneiro, a namorada, o platônico, o namorado, seu amor estelar, todos são importantes e reais. Paul ama tão intensamente quanto respira.

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André Aciman, escritor estadunidense, é também autor do sucesso literário ‘Call Me By Your Name’ (Foto: Divulgação)

A romance flerta muito com o  platonismo, sendo quase uma segunda narrativa na história. Paul narra apaixonadamente o que faz seu coração palpitar e seu pau subir. Ele gosta de dar margem a imaginação.

Aciman é um poeta que escreve por meio da prosa. E sexualidade, um tema difícil de se discutir, aqui, ganha uma camada de complexidade que subverte o senso comum da simples existência.

O imaginário do leitor é um campo fértil para o autor, que incita o prazer, seduz, despertando até então desejos inexistentes. O desejo é um caderno infindável de possibilidades, mas às vezes não sabemos o que escrever.

Acho curioso as paixões que abrem e finalizam o romance terem sido puramente platônicas. Não houve consumação, mas não pela ausência da vontade, simplesmente não chegaram a acontecer, os sinais e o momento não eram certos. E mesmo assim as descrições das situações vividas entre eles, nas duas etapas extremas da vida, infância e a meia idade, são tão belas quanto podem ser.

O autor é um mestre, um arquiteto dos prazeres da vida. Nos surpreende com o inesperável, com o prazer intenso e uma ficção que faz inveja a realidade. Que desejamos ser real, que aconteça com nós.

André Aciman criou um universo inteiro dentro de um homem só. Eu quero um universo assim pra mim. 

Foto destaque: Divulgação/Arte: Foca Alternativa

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