‘O Mundo Sombrio de Sabrina’: fofinho e satânico

Depois do fenômeno ‘Riverdale’, seriado teen baseado nos personagens dos quadrinhos da produtora Archie Comics, que fez sucesso pela sua pegada mais sombria e realista, é a vez de mais uma figura querida fazer seu retorno à telinha. Dessa vez na do computador, combinando com nossos tempos modernos. ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ estreou na Netflix no último dia 26.

A história de Sabrina Spellman, filha de um bruxo e de uma humana, que perdeu seus pais ao nascer e passou a morar com as suas tias feiticeiras, Zelda e Hilda, começa em 1962, quando a personagem aparece na edição 22 da revista Archie’s Mad House. Depois de seu sucesso nos gibis, ela chega a aparecer em filmes, séries, e desenhos animados, mas sua encarnação mais famosa – até agora – foi no seriado de 1996, que lançou ao estrelato a atriz Melissa Joan Hart, no papel de Sabrina.

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“Sabrina, Aprendiz de Feiticeira”, a versão mais famosa da história da personagem (Foto: Divulgação)

A mais recente versão da história, difere das outras ao abordar um lado mais macabro da tão querida bruxinha. Logo nos primeiros segundos do programa já percebemos que ele será bem diferente das versões que conhecíamos, podendo até assustar o espectador despreparado. O que talvez seja uma surpresa para alguns, mas não para os fãs de ‘Riverdale’, já que as duas se passam no mesmo universo, possuem os mesmos produtores, e seguem o mesmo modelo de modernização sombria.

A premissa da série permanece a mesma da de 1996: uma jovem que vive com suas tias imortais e seu gato preto mágico, chamado Salem, e que com 16 anos descobre fazer parte de uma família de bruxas, e a cada episódio precisa aprender como controlar seus poderes, e usá-los para o bem. Na versão da Netflix, porém, além de escolher seguir a ideia de que Sabrina sempre soube de seus poderes, existem alguns novos personagens muito importantes: a professora “possuída”, Miss Wardwell, o primo misterioso, Ambrose, e claro, o próprio Diabo. O último é até convidado de honra no aniversário de 16 anos de Sabrina, no primeiro episódio, e é quem comanda a história pelos bastidores ao longo da temporada. Então não espere a Sabrina “livre para todos os públicos” da Sessão da Tarde, por que essa é, coincidentemente, para maiores de 16 anos.

Também não espere ouvir as clássicas piadas e sarcasmos de Salem, animal de estimação com voz de locutor, pois na nova versão, para a tristeza geral, ele não fala. A escolha ousada da produção acabou sendo mais uma das mudanças necessárias para a renovação realista da história, que também abandonou o estilo de sitcom.

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Sabrina e as Irmãs Estranhas em cena da série (Foto: Netflix/Divulgação)

O programa de 1996 era todo centrado no apartamento da família Spellman, e com episódios que não necessariamente seguiam uma história coesa, mantendo o estilo tradicional de sitcom da época. Já a versão de 2018 segue o modelo de seriado moderno, com uma história central e misteriosa que motiva o espectador a assistir tudo de uma vez para desvendá-la. É o fenômeno “binging” que se tornou fórmula de sucesso da Netflix. Todo episódio termina em aberto, apelando para a vontade de descobrir o grande enigma do que vai acontecer depois.

A ideia da série é explorar o mágico, macabro e satânico, usando conceitos clássicos desse universo iconográfico como cruzes invertidas, feiticeiros de robes negros, demônios. Sem falar de um Satanás que se mantém oculto, e que quando aparece é retratado como um tenebroso bode humano. Nada de Diabo bonzinho que seduz pela sua beleza, a entidade maligna em Sabrina é tradicionalmente horrível.

Apesar do conceito ser interessante, e tentar quebrar com a moda de construir o sinistro como belo, ele falha um pouco em sua execução, e em um primeiro olhar causa estranheza no espectador mais acostumado com criaturas discretas. O design dos monstros parece datado, e lembra aqueles da década passada, como os de Buffy, a Caça-Vampiros’, e Senhor dos Anéis’, causando asco no espectador. Outra questão é o recurso escolhido pela série para demonstrar a “magia acontecendo”, que consiste na tela borrada e distorcida nas bordas, o que causa um desconforto na visão que demora a passar.

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O Senhor das Trevas em “O Mundo Sombrio de Sabrina” (Foto: Netflix/Divulgação)

Mesmo com essas imperfeições técnicas, ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ inova ao abordar temáticas como bullying, feminismo, sororidade, disforia de gênero, abuso, e machismo estrutural. A série também ilustra com maestria as relações humanas, fazendo com que o telespectador se identifique com todas as personagens em algum nível. Compreendemos a relação das tias que brigam desde a infância mas que se amam incondicionalmente. Compreendemos a fé absoluta dos membros da Igreja Satânica da Noite, as motivações conservadoras de seu líder, e a dor de sua esposa traída, que constituem alguns exemplos que também nos revelam a imperfeição dessa instituição. E o mais importante de tudo: compreendemos a angústia de Sabrina por viver duas vidas diferentes em dois mundos distintos, não pertencendo inteiramente a nenhum, mas sabendo que mais cedo ou mais tarde terá de fazer uma escolha.

CLASSIFICAÇÃO 4


FICHA TÉCNICA 
O Mundo Sombrio de Sabrina – The Chilling Adventures Of Sabrina
Data de lançamento: 26 de outubro de 2018
Criação: Roberto Aguirre-Sacasa
Sinopse: Bruxa e também mortal, a jovem Sabrina Spellman fica dividida entre a vida normal de adolescente e o legado de sua família feiticeira.

Foto destaque: Netflix/Divulgação

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