Entrevista: Carne Doce e as narrativas do íntimo

Condição natural de flexibilidade e de firmeza de um tecido ou órgão. Isto é o tônus, a tensão leve e permanente que sustenta o corpo naturalmente. O novo álbum do Carne Doce constrói a partir de seu título uma narrativa subjetiva e íntima, que se fortifica durante seus 41 minutos de duração.

‘Tônus’, assim como seu significado fisiológico, vem de dentro. De dentro da alma, de dentro do músculo. Ouvir este disco é como mergulhar na água gelada e escura: intenso e imersivo. ‘Tônus’ é constituído pelo entrelaçar de cinco psiquês diferentes trabalhando com flexibilidade e firmeza para tocar dentro, proporcionando uma experiência sinestésica e extremamente pessoal. São poucos os artistas que conseguem transpassar em suas obras o íntimo de forma crua, e o Carne Doce transborda.

O terceiro álbum da banda reflete a complexidade interior através de vínculos: melodia e poesia, amor e amizade, ódio e dor, e tantos outros que não cabem em palavras. A partir dessas reflexões pessoais (digo ‘pessoais’ sem pudor algum, pois ‘Tônus’ é um disco descaradamente íntimo – capaz de abarcar centenas de interpretações), conversei com Macloys, guitarrista do Carne Doce. O artista fala sobre processos criativos, a elaboração e recepção do novo álbum, e claro, Salma Jô.

‘Tônus’ é um álbum construído através da subjetividade de vocês. Como é se expor para o público de forma tão crua?
Macloys: A Salma, como letrista, já disse que não consegue ser poética ao compor. Para ela é mais fácil escrever sobre sentimentos íntimos, às vezes dolorosos ou inconfessáveis, que descrever uma realidade de forma poética. Todas as letras são sobre sentimentos dela, nisso ela é boa e consegue ser universal.

O álbum foi fruto de um trabalho em conjunto, desde a composição das letras até o projeto visual. Como funciona o processo criativo do Carne Doce? Como transpor cinco personalidades, ideias diferentes e influências de forma coesa?
Macloys: As letras são todas da Salma e o resto do trabalho é bem definido em sua divisão. Saber trabalhar assim é algo que construímos com o tempo. Eu componho a maior parte das canções com ela, oferecendo uma base harmônica ou embasando uma letra com melodia que ela já tenha. Daí, com as canções prontas, o João, produtor, dá a cara para as músicas, arranjando, pensando nas batidas, texturas. Já em ‘Tônus’, experimentamos formas diferentes de composição, em que todos participaram, como em “Irmãs”, por exemplo, que surgiu com uma jam instrumental. Depois a Salma deu a cobertura com a letra e a melodia, e o resultado é uma música linda.

‘Tônus’ traz letras poderosas e íntimas, porém as melodias são mais suaves do que o trabalho antecessor, ‘Princesa’. Essa contradição foi planejada, ou surgiu de forma espontânea no processo de produção do disco?
M: Não foi planejada. Tudo saiu pela simples necessidade de termos um disco, uma questão de timing: precisávamos de um disco novo porque ‘Princesa’, apesar de ainda conquistar pessoas, já faria dois anos. E acabou que saiu assim, refletindo algo que já estava na gente de alguma maneira.

O Dinho, do Boogarins, auxiliou na composição de “Amor Distrai (Durin)” e “Brincadeira”, e essa não é a primeira vez que vocês trabalham juntos. Como é a relação de vocês durante as composições?
M: Parte principalmente da iniciativa dele, que é um compositor inveterado e está sempre buscando fazer algo novo. Geralmente ele já tem algo começado e quer finalizar com alguém, como foi o caso de “Benzin”, do nosso primeiro disco, ou “Princesa”, do segundo. Quando estávamos compondo ‘Tônus’, ele apareceu com a frase “porque eu só gozo assim, em alto e bom som”. Cantarolou isso pra gente numa festa, em Goiânia, numa outra melodia, mas era o que faltava para uma canção que tínhamos (Salma e eu), que ainda não tinha refrão. Adaptamos a melodia e o encaixe foi perfeito, virou “Amor Distrai (Durin)”. “Brincadeira” surgiu com uma base de guitarra que eu fiz, e que o Dinho ouviu e inventou aquela letra e melodia em questão de minutos, enquanto bebíamos e tocávamos em casa, em Goiânia.

Como tem sido a recepção do novo álbum por parte do público nos shows? Os setlists são apenas com músicas do ‘Tônus’, ou vocês também tocam canções de trabalhos anteriores?
M: Tínhamos a impressão de que ‘Tônus’ teria uma aceitação mais lenta e difícil que ‘Princesa’, um disco mais estimulante e contextualizado politicamente. Mas essa expectativa não se concretizou, e para nossa surpresa, ‘Tônus’ foi absorvido rapidamente. No dia do show de lançamento no CCSP, em São Paulo, três dias depois da divulgação do disco, as pessoas já cantavam as músicas novas. Ficamos muito felizes! E isso tem se repetido a cada cidade onde passamos, desde julho, quando o disco saiu. O show atual mescla músicas de todos os nossos discos, mas com foco maior em ‘Tônus’.

Como funciona a relação de vocês com as outras artes, e como vocês transportam essas relações para a música?
M: Temos pouca relação com as outras artes. Não somos bons consumidores de arte. Aqui em casa, Salma gosta de cinema e lê bastante reportagem. Ela assina a Piauí e recentemente assinou a The New Yorker. As leituras certamente a inspiram, mas eu não saberia dizer como. Eu gosto de fotografia, sou jornalista e trabalhei com reportagem por uns anos há um tempo, mas também não acredito que isso me inspire. Enfim, eu gosto de música.

Qual é o próximo passo para a banda? Teremos alguma novidade em breve, como lançamento de videoclipe ou novos shows?
M: Temos uma agenda de shows a cumprir, com shows importantes, como a abertura para o Warpaint no Rio, e pro L7 em Belo Horizonte, além de alguns festivais. O ‘Tônus’ ainda deve render em 2019, se o fascismo não acabar com a produção cultural no Brasil.

Ouça o disco:

Lolla Brasil 2019

O Carne Doce é uma das atrações brasileiras que promete movimentar o Lollapalooza. A banda é a primeira a se apresentar no palco Budweiser, às 12:30 do sábado, 6 de abril,

SERVIÇO

Lollapalooza Brasil 2019
5, 6 e 7 de abril
Autódromo de Interlagos, São Paulo
Ingressos: https://www.lollapaloozabr.com/

 

Foto destaque: Divulgação/Rodrigo Gianesi.

3 comentários em “Entrevista: Carne Doce e as narrativas do íntimo

  1. Esse álbum tá lindo, e a entrevista também ❤

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    1. Obrigada, Bruno! 😀

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